Na série “Imersão”, serão apresentadas obras literárias
para “experimentação virtual”, com trechos para saborear, tretas, crushes, mistério e muito mais envolvendo autores, épocas e locais de publicação. Vamos juntos?
Inauguramos a série com “O Morro dos Ventos Uivantes” *
Ambiente: Séc. XIX. Inglaterra, zona rural. Em meio às
terras encharcadas dos pântanos.
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| Imagem: Flickr |
“(...)Adormeci e tive um novo sonho. Um sonho, se
possível, ainda mais estranho e desagradável que o anterior.
Desta vez, lembro-me de que estava deitado neste aposento
de madeira escura e conseguia ouvir com clareza a forte ventania e a crueldade
da tempestade de neve. Escutava ainda as irritantes pancadas dos galhos das
árvores na janela, tendo sossegado assim que percebi qual a sua causa.
No entanto, o som incomodava tanto que, dentro do
possível, resolvi pará-lo. No meu sonho, levantava-me e tentava abrir a janela;
o fecho estava preso ao encaixe, algo que eu já havia notado quando
acordara, mas que entretanto esquecera.
« Tenho de acabar com este barulho de qualquer forma!»
resmunguei, impaciente. E foi assim que, com um soco, parti o vidro, esticando
em seguida o braço para agarrar o ramo. Porém, contrariamente ao esperado,
agarrei os dedos de uma mão de criança, pequena e gélida!
Fiquei completamente aterrorizado pela intensidade do
pesadelo. Tentei largar a mão, mas ela se agarrou aos meus braços ainda com
mais força. Subitamente, escutei uma voz extremamente melancólica e triste,
soluçando:
« Deixe-me entrar, por favor, deixe-me entrar!»
« Quem és tu?» perguntei, lutando desesperadamente
para me libertar da mão que me agarrava.
« Catherine Linton» respondeu a voz, trêmula (...) «Voltei, perdi-me nos brejos!»
Na escuridão, consegui ver um rosto de criança olhando
pela janela. Então, o meu terror transformou-se em crueldade. Face à impossibilidade de me libertar daquela criatura, agarrei-lhe o pulso e rocei-o no
vidro partido até o sangue começar a escorrer, acabando por molhar os lençóis.
Porém, a estranha visão continuava a chorar «Deixe-me
entrar!» , agarrando-se a mim com tal força, que quase me enlouquecia de pavor.
« Como...?!» disse-lhe então. « Solte-me, se queres
que te deixe entrar!»
Assim que os seus dedos se soltaram, retirei
rapidamente a minha mão e comecei a empilhar livros e mais livros contra a
janela, tapando os ouvidos para não ouvir mais os seus lamentos. Devo ter
permanecido assim por mais de um quarto de hora. Porém, mal os destapei, logo o
choro triste e dolorido recomeçou.
« Vá embora» gritei. «Nunca te deixarei entrar, nem
que implores durante vinte anos» .
« Vinte anos» lamentou-se, « Há vinte anos que estou vagando!»
De repente, ouvi um ligeiro ruído no lado de fora e a
pilha de livros mexeu-se, como se tivesse sido empurrada. Tentei fugir, mas não
me consegui mexer. Então, estarrecido, gritei o mais alto que podia.
(...)”
Fofocando:
1- O trecho acima é de O Morro dos Ventos Uivantes,
publicado em 1847.
2- O livro foi escrito por Emily Brontë, jovem inglesa
que vivia na região pantanosa próxima a Yorkshire.
Não este yorkshire:
Este:
Não é um charme?
3- O Morro dos Ventos Uivantes foi lançado sob o
pseudônimo (nome falso) masculino de Ellis Bell. Na época, o papel feminino
aceito pela sociedade não era o intelectual, mas o de dona de casa, esposa e
mãe. Para se protegerem da exposição, muitas mulheres publicaram sob nomes
masculinos. Nesta reportagem da BBC, você fica sabendo mais: clique aqui.
4- Infelizmente a autora não viu o sucesso de sua
publicação, pois morreu de tuberculose um ano após o lançamento da obra que a
consagraria uma das maiores escritoras do Romantismo.
5- A obra é importante não só pelo retrato da Inglaterra vitoriana (1837-1901), mas também pela temática. A
escritora aborda o abuso doméstico, refletido na relação doentia dos
protagonistas (Heathcliff e Catherine), tendo como pano de fundo o amor
obsessivo, especialmente na figura do personagem masculino, os temas góticos e
o preconceito de classes.
Será aquela única árvore em pé ao lado dos escombros a
tal árvore que se transformou em gente na versão para cinema com Ralph Fiennes e Juliette Binoche?
A história dessa residência também está cercada de
aparições fantasmagóricas. Muitos curiosos visitam o local, que tem até placa
de identificação como ponto turístico:
7- Há, porém, outra residência, a Ponden Hall, muito
mais conservada (lindona mesmo e reformada!) e à venda pela ninharia de 1,6 milhão de dólares (Eu aceito de
Dia dos Professores 🙄), que também se acredita ter influenciado na criação
de Brontë. A escritora e três de seus irmãos, ainda crianças e alguns criados,
teriam se abrigado nessa casa em 1824, durante uma tempestade terrível, que
levantou ondas assustadoras de água, lama e detritos, descrita em documentos
da época. Os Brontë teriam ficado amigos dos donos
de Ponden Hall e frequentado a casa posteriormente. Emily teria se encantado
com a biblioteca.
Clique na imagem e acompanhe o vídeo e fotos do anúncio de
venda da Ponden Hall:
8- Planejando conhecer a zona rural de Yorkshire? Esta
é a residência dos Brontë, em Haworth, agora um museu, em homenagem à família.
O local é descrito como um lugar “de paz e melancolia”.
Confira no museu:
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| Cozinha |
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| A sala de jantar. |
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| Os sapatos de Charlotte Brontë |
9- Outras irmãs Brontë também escreveram. Anne Brontë,
a caçula, publicou A Senhora de Wildfell Hall (às vezes encontrado como A Inquilina
de WH, ou O Tenente de WH) e Agnes Gray (1847), e é de Charlotte Brontë uma das
obras mais influentes da literatura inglesa, Jane Eyre, também de 1847.
As irmãs eram consideradas reclusas, não se expunham à sociedade. Há, por isso,
uma misteriosa (e assustadora) fotografia que, ainda hoje, tenta-se descobrir
se é ou não o retrato das famosas Brontës.
Os olhos quase fantasmagóricos da moça à esquerda se dão
por uma superexposição à luz, algo comum na época, já que as máquinas
fotográficas estavam em fase de experimentação.
Não se tem nenhum registro oficial dos rostos da
família Brontë, a não ser de Emily, num pedaço de fotografia que teria sobrado
após o marido de Charlotte ter queimado o resto da imagem porque achou que sua
esposa tinha saído “mal na foto” (quem nunca deletou uma selfie que atire o
primeiro smartphone).
A imagem abaixo, com as três irmãs seria, se verdadeira,
portanto, um valioso documento. O que vocês acham? Posto também alguns desenhos representando as irmãs. Tirem suas conclusões (mas
me contem nos comentários!)
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| A foto polêmica |
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| Anne, desenhada pela irmã Charlotte |
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| Representação de Emily Brontë |
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| As irmãs Brontë, desenho de Branwell (irmão) |
10- O único irmão das meninas Brontë (responsável pelo desenho acima), e também o herdeiro legal dos bens da família, era Branwell. Apesar das expectativas do clã, o
rapaz não foi bem sucedido na vida íntima. Clicando na imagem abaixo você consegue dar zoom em HD em cada cantinho do caótico quarto do rapaz (no museu), bagunça que, vale dizer, muita gente associa à confusão e decadência pessoal de Branwell.
11- Pra encerrar, só este detalhe de livros nos aposentos de Emily Brontë (acho
tão chique essas capas antigas!). Clicando sobre a foto, você acessa mais um zoom em HD.
Referências:
- BRONTË, Emily. O Morro dos Ventos Uivantes
- GLOBO Livros. O Livro da Literatura: as grandes ideias de todos os tempos.
- A trágica história de Patrick Brontë: http://northernlifemagazine.co.uk/branwell-bronte/
- Vista da casa dos Brontë: https://www.traveller.com.au/content/dam/images/h/1/4/j/m/n/image.related.articleLeadwide.520x294.h14jm2.png/1537157161398.jpg
- Vídeo-propaganda da venda de Ponden Hall: https://www.youtube.com/watch?v=ZfhpvbVG6xI#action=share
- Para comprar Ponden Hall para a professora: https://www.fineandcountry.com/uk/property-for-sale/keighley/bd22-0hr/1350153. Infelizmente ela foi vendida (atual. 07/07/21)
- Sobre a história da propriedade Ponden Hall: https://www.smithsonianmag.com/smart-news/house-may-have-inspired-wuthering-heights-sale-180971675/
- Sobre lugares que lembram e inspiraram Emily Brontë: https://life.spectator.co.uk/articles/a-walk-in-emily-brontes-footsteps/
- Sobre mulheres que escreveram com nomes masculinos: https://www.bbc.com/portuguese/geral-43592400
- Sobre Top Withens, que inspirou O Morro: https://www.yorkshirepost.co.uk/whats-on/arts-and-entertainment/true-story-house-hill-inspired-wuthering-heights-1799935
- Sobre a tempestade que levou à Ponden Hall: http://www.thecompassmagazine.co.uk/haworth-bog/
- Sobre a foto das irmãs: https://whatsupwithbrontemania.wordpress.com/2017/02/17/blog-post-title-2/
- Sobre o cãozinho yorkshire, ooowwnnnnnnnnnnnnnnnn: https://www.petz.com.br/cachorro/racas/yorkshire/
- Conheça Yorkshire Dales (meia hora de carro até a cidade de Emily Brontë): https://www.youtube.com/watch?v=qJTMeXUfLJ8
- Site da Vila de Haworth (local do museu Brontë): http://www.haworth-village.org.uk/webcam.asp
- * O Morro dos Ventos Uivantes está à venda a partir de R$ 16,90 na amazon.com.br (consulta em 28 fev 2020) e no estantevirtual.com.br a partir de R$ 7,90. Vai assistir ao filme? Recomendo esta versão cuja música (sucesso dos anos 70's) conta a trágica história de Heathcliff e Catherine: https://www.youtube.com/watch?v=PzzsmzAyOs8
















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