Dia 31 de janeiro deste ano, o jornalista Eduardo Affonso publicou no jornal O Globo uma crônica (Réquiem por um cão) de notável beleza. Nela, o autor fez uma homenagem ao cãozinho Orelha, assassinado com requintes de perversidade em Santa Catarina.
Affonso, porém, vai além desse triste episódio e nos lembra, com razão, dos milhares de cães que imploram afeto, comida e segurança nas ruas do Brasil; recorda que esses mesmos espaços guardam monstros dispostos a todo o tipo de mal contra bichos ou seres humanos indefesos. E tais monstros, como aberrações sociais que são, investem convardemente contra qualquer espécie de vida que represente seu oposto: onde há a ternura da vítima, há a crueldade da besta; onde há inocência do olhar de um cão ou gato em situação de rua, há a psicopatia do agressor covarde; onde houve o amor do Orelha, perpassaram o ódio e a indiferença como navalha de ruína e tristeza.
Curiosamente, todos os que matam por prazer são humanos, ou melhor, projetos do que deveria ser humano. Humanidade requer empatia, e pouco hoje se fala sobre cultivá-la, especialmente para com espécies diferentes que têm nosso mesmo direito de existir e a mesma condição de sentir.
Affonso nos evoca reflexões sobre os muitos "orelhas" e "manchinhas" esquecidos pelos cantos do Brasil, ou os Galdino-Pataxós, queimados vivos por moleques mimados e delinquentes, ou as meninas (e mulheres) estrupadas, vilipendiadas e mortas por homens que se creem seus donos, ou ainda os mais de cem animaizinhos deixados para morrer na Cobasi de Porto Alegre enquanto computadores eram postos a salvo longe da enchente que castigou o Rio Grande do Sul, e outros tantos dos que aceitamos ordinariamente o sacrifício em abatedouros e granjas, e os que fraudamos com atitudes ilícitas em benefício próprio.
Todos os dias somos maus. Em qualquer lugar do mundo, somos maus. Mas a maldade perpetrada contra os que nada fizeram por merecê-la e mal podem se defender dos que lhes agridem é um sinal de que talvez sejamos a espécie que "deu errado" nos planos do Universo, ou de um deus, se ele existir e todavia se preocupar com os seres deste planeta.
A luz que resta é tênue e não conforta. Ela ainda se mostra resistindo acesa no horror e na comoção que violências como a praticada contra o cãozinho Orelha nos causa. Mas se é necessária a barbárie para fazer aparecer nossa condição humana, ainda insisto que falhamos. Miseravelmente. E quem paga são inevitavelmente os mais frágeis e bonitos, os que representam nosso coração, nossa condição comum e sagrada do direito de existir em paz.
O texto de Eduardo Affonso deve ser lido todos os dias, deve ser lido em casa, nos cafés de todas as manhãs, nos transportes coletivos a caminho do trabalho, nas reuniões de empresa, nas festas de família e nas baladas, como um mantra, ou uma prece que nos recorde quem somos. Nunca é demais que nos lembremos de que não possuímos a vida dos outros, que temos obrigação de proteger os que não podem fazê-lo por si sós, que devemos muitas desculpas àqueles que não soubemos manter a salvo de nós mesmos. Quem sabe repetidas cotidianamente essas lições, aprendamos afinal algo de bom com que presentear nosso futuro, o de toda a Terra e o da vida que aqui habita.