A descoberta científica astronômica mais importante (talvez) de 2025 veio de um planeta fora do Sistema Solar, o K2-18b, que orbita sua estrela na zona de possibilidade de vida da Constelação de Leão. Trata-se da provável bioassinatura microbiana que comprovaria a existência de vida extraterrestre. Como bom leonino, o K2 está contente com a fama e já contou as boas-novas ao micróbio responsável pela assinatura biológica que causou frisson aqui na Terra a cerca de 124 anos-luz ao ser confirmada pelo telescópio James Webb, da Nasa.
O telescópio James Webb
Ninguém perguntou, mas o micróbio se chama Henrique. Henrique nunca pensara em alcançar nenhum status de celebridade, especialmente tão longe de casa, mas apesar da modéstia que lhe foi peculiar até o momento de se tornar um astro, já vem falando abertamente sobre os muitos sonhos que guardara toda a vida, desde que era apenas uma única célula perdida em K2.
Kike, como era conhecido por K2, queria crescer e se multiplicar, sonhava encontrar outro micróbio pluricelular como ele e originar seres mais complexos; queria se tornar um ser vivo capaz de ser visto a olho e talvez nu, ainda que isso se desse em um jardim de onde depois fosse expulso com seu parceiro e, envergonhados da própria nudez acabassem cobrindo tudo com folhas de parreira.
Henrique e ele ou ela então dariam continuidade a tudo que existisse fora de lá: plantas, bichos e gentes, iniciariam vilarejos que cresceriam em cidades, países e organizações internacionais. O célebre casal idealizaria programas nas recém inventadas redes de televisão para expor seus pratos gourmets; poria em prática as ideias de vallets para os carros que já vinha planejando, as casas de móveis brancos e estilo clean, além dos helicópteros e hiates que cruzariam seus céus e mares compartimentados e patrulhados por oficiais de fronteiras. E seus povos incrementariam a tecnologia até chegarem às armas, às guerras tarifárias e às ameaças de uso de bombas de aniquilação maciça. Já autônomos, depois de se esquecerem de Henrique e Cia, esses povos seguiriam expandido feitos. Da comunicação satélite então chegariam aos foguetes e telescópios que perscrutariam o espaço e descobririam, com sorte, um simplório microorganismo sonhando chegar aonde ele já chegou...
Mas, de repente, KiKe se sentiu triste. Deu-se conta de que era só mais um micróbio orbitando uma estrelinha no meio de bilhões e de que sua existência se encaminhara para algo já planejado, previsto e executado e ele parecia fadado a repetir uma história já tantas vezes escrita e com o mesmo desfecho: o tédio do fim.
E Henrique olhou ao redor. Era um micróbio feliz, mergulhado em um caldo nutritivo e termicamente ajustável em seu planeta. Tudo bem que K2 era meio metidinho, mas e daí? Era seu, só seu e as coisas estavam em perfeito equilíbrio. Tinha aquilo de que precisava: paz. Quer dizer, tivera. Porque hoje já se preocupava com aquela espécie de inxeridos, que não sabiam ficar na deles e miravam as máquinas na direção do seu astro-casa. E agora Henrique estava sob prescrição de anti-ansiolíticos, constantemente peocupado se seu planeta seria invadido por aqueles alienígenas, seus espelhos e péssimas ideias de decoração.
